Fato Público
Um simulador de urna feito na véspera do 1º turno virou, em três semanas, a apuração ao vivo das Eleições 2026, com mapa, placar e os boletins do TSE chegando em tempo real, e um perfil no Instagram com Reels de centenas de milhares de visualizações. Agora vira um portal de dados públicos: quem representa você, como vota e quanto gasta. Concebi, desenhei e programei o produto inteiro, com uma regra que não muda: sem lado, só fatos.

Resultados
Plataforma · fatopublico.com.br, noite do 2º turno
Instagram · @fato_publico, nos primeiros 5 dias de perfil
Site: contador próprio, sem cookie e sem guardar IP. Instagram: painel profissional do perfil, em 26 e 27 de outubro de 2026. Case em evolução: o portal está começando agora.
Contexto
Começou em 3 de outubro de 2026, um dia antes do 1º turno, com uma pergunta simples: dá para treinar o voto antes de chegar na urna? Fiz a Urna de Treino, um simulador fiel à urna eletrônica (tela 16:10, teclado com braile, a trava de um segundo no "Confira seu voto"), com os candidatos reais de cada estado vindos dos dados abertos do TSE.
A urna abre perguntando onde a pessoa vota, carrega os candidatos daquele estado e guia as seis etapas do voto. No celular, o teclado ocupa a largura toda, no tamanho do dedo.


A primeira apuração
Na noite do 1º turno, em 4 de outubro, a Urna de Treino ganhou uma página de apuração, escrita e publicada ao longo do próprio dia: abas por cargo (presidente, governador, senador, deputados), os cinco mais votados com barras que andam a cada boletim, a linha dos 50% e uma conferência com o TSE a cada 10 segundos.
- "Eleito" só com o TSE. Quando a conta garante a vitória, a etiqueta diz "matematicamente eleito"; a palavra "eleito" espera a confirmação oficial.
- A Câmara se formando. As 513 cadeiras num arco, preenchidas estado por estado conforme cada um termina.
- Aviso no navegador. Quem quisesse recebia uma notificação quando a apuração começasse.
Funcionou, e mostrou o limite: uma lista responde quem está na frente, mas não onde nem quanto falta. Para o 2º turno, a apuração virou um painel com mapa, e o projeto ganhou nome próprio. Em 6 de outubro nasceu o Fato Público, com o lema que guia todas as decisões desde então: Sem lado. Só fatos.


O desafio
Uma noite, sem segunda chance. A apuração do 2º turno dura poucas horas. O site precisava aguentar picos, ler os arquivos do TSE sem ser bloqueado (o servidor do TSE corta quem pede demais de uma vez) e mostrar cada boletim segundos depois de ele sair.
Neutralidade num assunto inflamável. Num ano polarizado, qualquer detalhe vira lado: uma cor de destaque, a ordem dos nomes, um adjetivo. O produto tinha que ser confiável para quem vota em qualquer um.
Quem está no celular, no meio da noite. A maior parte das pessoas acompanha pelo telefone, muitas vezes ao mesmo tempo que a TV. A leitura tinha que ser imediata: quem lidera, quanto falta, o que mudou.
Método
Trabalhei com poucos princípios, escritos antes da primeira tela e cobrados em cada entrega:
- Sem lado. Cada candidato tem a cor do seu partido, e mais nada. O amarelo da marca nunca destaca um número de candidato. "Eleito" só aparece quando a matemática garante. Demonstrações usam nomes inventados, nunca um candidato real vencendo com número falso.
- Menos é mais. Interface sintética, pouco texto, nada de pop-up com rolagem. Se um dado não ajuda a entender a noite, ele sai.
- Celular com cara de app. Barra fixa, bottom sheets, botões na largura toda e estados vazios pensados para a tela pequena.
- Site leve. Só anima transform e opacity, o mapa grande nunca é repintado inteiro, os dados pesados (5.570 municípios) só carregam quando alguém olha.
- Grade de 4 px. Todo espaçamento é múltiplo de 4 ou 8.
A noite do 2º turno
A página do 2º turno junta tudo em uma tela: o duelo de presidente com a barra de quanto foi apurado, o mapa de estados e municípios com duas leituras (a vantagem de cada candidato e quanto cada lugar já apurou), a linha do tempo dos boletins e as atualizações do TSE em ordem. Cada estado com 2º turno para governador ganha o seu placar.
Por trás, um agregador próprio lê os arquivos do TSE no ritmo que o servidor deles aceita, guarda cada boletim e serve todo mundo a partir de um cache de 10 segundos. Se mil pessoas abrem ao mesmo tempo, o TSE recebe um pedido só.
Para mostrar o produto antes da noite, sem fingir resultado, existe uma demonstração com candidatos inventados, em que a contagem anda sozinha do primeiro boletim ao fim. É ela que aparece no vídeo abaixo.

Neutralidade é sistema, não discurso.
Dizer "somos apartidários" não convence ninguém. O que convence é o produto se comportar igual para os dois lados: as mesmas cores para os mesmos partidos, os nomes pelo jeito que o eleitor conhece, nenhuma cor de destaque num número de candidato e nenhum resultado antecipado.
O custo: abrir mão de recursos que dariam mais cliques, como alertas de "virada" e destaque para quem lidera. Em troca, um produto que as pessoas compartilham sem medo de parecer que escolheram um lado.
Anunciar sem falar com ninguém
Os espaços de anúncio da apuração se vendem sozinhos, em uma página só (/anunciar), pensada para o dono de um negócio pequeno fazer tudo pelo celular:
- Monte a placa. Escolha o espaço, escreva a marca, a frase e o botão, suba o logo e as cores. A prévia muda a cada letra, no formato das placas de LED da beira do campo.
- Veja na página. A placa aparece dentro da apuração de verdade, no computador, no celular e na tela cheia, antes de pagar.
- Checagem automática. Ao enviar, uma IA confere o anúncio contra a política de publicidade (nada político ou eleitoral). Aprovado, o Pix aparece na hora; na dúvida, o pedido vem para mim.
- Pague e acompanhe. Pix direto, sem intermediário, e uma página do pedido que se atualiza sozinha até o anúncio entrar no ar.
O preço acompanha a audiência: um piso, mais uma semana de público ao CPM, com teto, e nunca desce numa semana fraca.
1 · Monte a placa · a prévia muda a cada letra
O painel
Por trás do site, um painel só meu acompanha a noite em tempo real: quantas pessoas nos últimos 5 minutos, o dia comparado ao anterior na mesma hora, a curva por hora, o mapa por estado, as cidades, os aparelhos, as páginas de entrada e o que as pessoas fazem (compartilhar o placar, clicar num anúncio, pedir para anunciar).
A outra aba administra os anúncios: aprovar ou recusar um pedido, marcar o Pix recebido, tirar do ar e ajustar os preços. As mesmas ações chegam por e-mail, com botões assinados, para resolver pelo celular. Ela fica de fora das imagens porque mostra empresas e contatos.
A contagem não usa cookie nem guarda IP. Os aparelhos do dono não entram na conta.
Audiência · como estava às 21h02 de 25/10, perto do pico
Os números do site
A contagem sem cookie bastou para entender a noite minuto a minuto e montar um mídia kit público, com números verdadeiros, para quem quiser anunciar no portal.
A leitura mais forte: o público seguiu o TSE. O TSE soltou o 1º boletim às 17h06 e ficou em silêncio até as 19h01. A audiência caiu junto e voltou 5,4 vezes maior quando os boletins recomeçaram. O auge veio às 20h25, com metade das urnas apuradas. Com 99% apurado, o público foi dormir.
O número que mais importa não é o de aberturas da página (um mesmo celular recarrega a página cada vez que a pessoa volta de outro app), e sim o de pessoas: 318 na noite, 96% pela primeira vez.
Mídia kit · 318 pessoas na noite, 5,5× o 1º turno
No Instagram
O @fato_publico leva o mesmo jeito para o feed: Reels curtos com os números oficiais, checagens de boatos e perguntas que qualquer um faria, sempre com a fonte na tela. Montei um kit visual próprio (fundo preto, frase com marca-texto amarelo, rótulos em mono, cartões de checagem) e um grid medido das zonas seguras do Instagram, para nenhum texto ficar embaixo dos botões.
Na madrugada depois do 2º turno, um pedido de anulação da eleição virou assunto. O Reel "Dá para anular essa eleição?" respondeu com a lei e os fatos e chegou a 295 mil visualizações em 22 horas, 95% delas de quem não seguia o perfil. Foram 4.746 compartilhamentos, 47 segundos de tempo médio e 1.385 pessoas que passaram a seguir.
Instagram · painel profissional do perfil









Depois da eleição
A eleição acabou; a pergunta continua. O Fato Público vira um portal de dados públicos com quatro respostas no centro, todas a partir de fontes oficiais (Câmara, Senado, TSE e governo federal):
- Quem me representa? Pelo CEP ou pela cidade, todos os eleitos com mandato no seu lugar, do vereador ao presidente.
- Como vota? Cada votação nominal do Congresso, com o voto de cada parlamentar e a orientação do partido.
- Quanto gasta? A cota parlamentar por categoria e fornecedor, e as emendas com o caminho do dinheiro.
- O que aconteceu? As notícias oficiais, sem opinião.
O protótipo já roda com dados reais. A primeira fase entra no ar entre novembro e dezembro de 2026; a segunda, na posse dos eleitos, em 1º de fevereiro de 2027.

Políticos · os 1.709 com mandato, por cargo, estado e partido
Como foi feito
Um designer, um par de IA e nenhum framework. Escrevi o produto com o Claude Code como par de programação: eu decidia o que construir e como devia parecer, revisava cada mudança e testava no navegador antes de publicar. Foram quase 200 commits em 23 dias, da Urna de Treino ao resultado final.
- Privacidade como padrão. Contagem sem cookie e e-mails de aviso apagados assim que o aviso sai.
- Segurança revisada. Uma auditoria antes da noite da eleição encontrou quatro pontos médios, todos corrigidos antes de 25 de outubro.
- Ensaio geral. Um modo de ensaio local, com marca d'água, simulava a noite inteira para testar cada estado antes de ela acontecer.
Aprendizados
- O celular é o produto. Nove em cada dez pessoas vieram pelo telefone. O computador é a versão adaptada, não o contrário.
- Audiência de evento vai embora com o evento. O pico durou duas horas, colado nos boletins. O portal precisa de motivos para voltar: alertas, novidades por e-mail e dados que mudam toda semana.
- O alcance veio de responder rápido. O Reel mais visto saiu horas depois da dúvida aparecer, com a lei na tela. Fato checado no momento certo viaja mais que opinião.
- Medir com respeito também é medir. Sem cookie e sem IP, ainda deu para ver a noite minuto a minuto. E contar pessoas, não aberturas, evita se enganar com o próprio número.
- IA acelera, critério decide. Escrever código ficou rápido. O que levou tempo foi decidir o que não entrar, e manter as regras de neutralidade em cada detalhe.
Próximo case
Clickmax · CX Admin
Navegação unificada e templates de funis em fluxo self-service.




















